O abuso sexual não tem desculpa, tem lei.
O abuso sexual ainda é um tabu
que precisa ser debatido para ser combatido. Mesmo sendo abordado pelas mídias
em geral, principalmente nos noticiários de TV, o tema ainda continua pautando
muitas notícias. Diariamente assistimos perplexos à reportagens com chamadas do
tipo, “Bebê de 7 meses é estuprada pela mãe e pelo pai em motel”, “Criança de 2 anos é abusada pelo próprio pai”,
“Pai estupra filha de apenas 10 meses”. Até quando vamos assistir calados a
essas notícias desumanas contra nossas crianças?
Para entendermos melhor sobre a
importância de se falar a respeito, basta observar os dados. Segundo o
Ministério da Saúde, somente no ano de 2017, cerca de 12 milhões de crianças e
adolescentes sofreram alguma violência sexual em todo o mundo. No Brasil, o
abuso sexual é reconhecido como um problema de saúde pública, isso considerando
que menos de 10% dos casos chegam a ser registrados. Para transformar esse
cenário é preciso mudar a maneira de pensar e agir a respeito. O conhecimento e
a educação levados através da informação podem transformar a atual realidade de
milhares de pessoas que sofrem abusos na infância e lidam com danos
psicológicos e físicos para o resto da vida.
Os pais geralmente se sentem
intimidados de conversar com os filhos quando o assunto envolve sexo. É
delicado saber qual é o melhor momento e de que maneira falar a respeito sem
ser invasivo. Além disso, existe um falso “modelo de perfeição”, que não os
deixa perceber que talvez o perigo esteja dentro de casa. Não passa pela cabeça
de uma mãe que o pai possa abusar da filha, que o avô, o tio, irmão ou padrasto
seja capaz de machucá-la. A criança é educada e incentivada a ter plena
confiança e obediência a essas figuras que obrigatoriamente deveriam dar-lhe
apenas amor, mas o que acontece muitas vezes é o contrário disso. E é
exatamente nesse ponto que eu quero chegar.
A criança precisa saber até onde
vai o limite de outra pessoa com ela, principalmente quando se trata do seu corpo.
Ela deve ser orientada sobre o significado de cuidado e amor, bem como
distinguir o certo do errado. A psicologia explica que a criança entende o
sentido da palavra não, a partir do momento que é inserida pelos pais em sua
vida, e com o tempo vai assimilando uma coisa com a outra. Significa que se
você ensinar a seu filho (a) que ninguém pode tocá-la em suas partes íntimas
ela vai entender. Mas para que haja uma cumplicidade é preciso confiança, e
esse é outro ponto a ser debatido.
Nas reportagens que fiz a
respeito do tema, pude perceber que em todas as situações, os abusos ocorreram
por dois fatores, falta de informação e
entendimento, ou seja, a pessoa não sabia que se tratava de um abuso. E
principalmente pela falta de confiança
em contar para os pais o que havia acontecido. Recentemente, a novela Do outro
lado do Paraíso, retratou o julgamento do delegado Vinícius, acusado de
pedofilia por sua enteada. O público pode acompanhar e sofrer junto à
personagem Laura o quanto aquele abuso trouxe traumas que ela carregava até a
vida adulta. Na novela assim como na vida real, sua mãe não acreditou em seus
relatos, disse que era coisa de sua imaginação, o que a fez sofrer mais ainda.
Usando o exemplo desse caso, a
vida infelizmente imita a arte. Naquele capítulo do julgamento, quantas “Lauras”
estavam se contorcendo no sofá lembrando e sentindo a mesma dor retratada pela
atriz Bella Piero? Quantas mães tiveram sensibilidade e empatia de perceber que
talvez o mesmo estivesse acontecendo em seu lar? Quantos Vinícius saíram de
cena naquele momento, para disfarçar o envolvimento com a ficção?
A trama vivida pelos personagens
trouxe a tona o debate e a reflexão sobre esse tema bastante delicado. A ficção
conseguiu levar ao público conhecimento de como o abuso aconteceu, acontece e
vai continuar acontecendo caso a maneira de pensar e de agir das pessoas não
mude. É preciso falar com seu filho sobre abuso, conversar sobre seu corpo,
sobre os limites que devem existir entre os toques e carinhos. É necessário que
haja confiança, empatia, cuidado e zelo. Nossas crianças estão cada vez mais
expostas a este tipo de violência, e nós o que estamos fazendo?
Talvez ocupados demais com nosso
trabalho, com nossa vida particular, com nossas contas a pagar e deixando de
lado o que realmente importa. Não se percebe um comportamento diferente, um
desenho feito pela criança na intenção de expressar a sua dor, tão pouco nota-se
uma mancha roxa que apareceu em seu corpinho tão frágil. Será que é mais fácil
ou mais conveniente acreditar que tudo faz parte das brincadeiras de infância,
birra, coisa de criança, do que tirar um minuto para ouvir o apelo desse
inocente pedindo por atenção? As pessoas preferem maquiar os fatos, a encará-los.
Mariza Mattos, estudante de Jornalismo na
Univel. Pesquisadora inquieta com o tema da violência sexual.
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