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O espetáculo do inconcebível


O 29º Festival de Dança de Cascavel se aproxima, e para dar as boas vindas ao evento, a Cia de Dança Deborah Colker esteve na cidade para apresentar o espetáculo Cão Sem Plumas, a décima obra da companhia.
Com reconhecimento nacional e internacional, o espetáculo conquistou o prêmio Benois de La Danse, considerado o Oscar da dança, e na trajetória de 24 anos não faltam reconhecimentos: em 2001 recebeu o Laurence Olivier Award na categoria Oustanding Achievement in Dance (realização mais notável em dança no mundo). Em 2009, a coreógrafa foi a primeira mulher a ocupar o comando da Cia de circo mais respeitada do planeta, o Cirque Du Soleil, onde criou o espetáculo “Ovo”, cujo significado é a continuação da vida, o enigma, o amor, o que a gente não sabe, o que está por vir. Em 2016, foi a diretora de Movimento da cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro.
Na nova peça, Cão Sem Plumas, os bailarinos imitam caranguejos, movimentos que remetem à ideia do andar para trás, do retroceder. Uma relação entre o homem e a natureza, com o descaso de um para com o outro, de uma vida para aquilo que é a vida, o que também faz o poema O cão sem plumas de João Cabral de Melo Neto, que inspira o espetáculo da Cia Deborah Colker.
 O poema volta o olhar para o rio Capibaribe-Pernambuco e o povo ribeirinho. O rio praticamente é a única fonte de renda dos que vivem à sua margem. Hoje, ele é poluído, o rio que antes encantava com a cor azul do mar, agora tem a pigmentação da lama, é depósito de lixo. Capibarite é o coração de Recife, se ele parar a cidade falece.
João Cabral escreveu o poema em 1950, movido pelo impacto que a miséria e o desmazelo do sertão haviam lhe despertado. A coreógrafa teve a mesma comoção ao se deparar com os versos do pernambucano. E assim, compôs um espetáculo, de crítica social acerca do que é inadmissível, do descarte incorreto do lixo e das consequências dos atos humanos, do conformismo do que é intolerável.
Aquele balé composto apenas por 13 bailarinos, juntos, tornam-se uma multidão em meio a coreografia visceralmente conjecturada, em alguns momentos parecem sair da tela do cinema direto para o palco. É como se você estivesse contemplando um cinema 3D, mas não precisasse usar óculos, tudo está ali, com objetividade, para cego ver.
Os corpos cobertos pela lama que se entrelaçam parecendo sair um de dentro do outro, o pó remetendo aquele sertão. Uma metáfora empregue à figura do cão. Cães não possuem plumas, a expressão ‘sem plumas’, evidencia aquilo que não tem brilho, abandonado, solitário, esquecido. Assim como aquelas paisagens descritas no verso do poema.
De uma forma poética os bailarinos performam no mangue, em meio a caranguejos, nas regiões secas, no chão craquelado de um lugar que não vê água há meses. As gaiolas encenam as armadilhas que os homens armam para apanhar caranguejo, do mesmo modo, refletem as armadilhas que o homem arma para si próprio, quando destrói a natureza.
Um projeto que durou três anos para ficar pronto, 23 dias de filmagens. Um poema humano, revelado em 01h10min de apresentação. Um espetáculo que expressa numa composição de dança e cinema, tudo aquilo que é inaceitável, a miséria, a seca, a fome, a destruição da natureza, as mazelas e as favelas.
Cão Sem Plumas relaciona-se com a vida pessoal de Deborah Colker. Seu neto nascera com uma doença genética de pele, e desde então, isso fez com ela defrontasse a vida de outra forma. Seu jeito prático de ser foi de encontro com algo que escapava do seu controle, tornava-a impotente diante daquilo que ela ansiava mudar, a doença incurável do ente querido.
O poema transfigurado em espetáculo veio para ela como forma de um pensamento do inconcebível, do descaso. Do desdém do homem para com a natureza, com as crianças e com o próprio homem. E isso não é incurável, o remédio é o ser humano, é a mudança na mentalidade, é o agir, é o não aquietar-se diante da tragédia que se instala.

Criação, Coreografia e Direção: DEBORAH COLKER
Direção Executiva: JOÃO ELIAS
Direção Cinematográfica e Dramaturgia: CLAUDIO ASSIS
Direção de Arte e Cenografia: GRINGO CARDIA
Direção Musical: JORGE DÜ PEIXE e BERNA CEPPAS participação especial LIRINHA
Desenho de Luz: JORGINHO DE CARVALHO
Figurinos: CLÁUDIA KOPKE
Duração: 1h10 minutos
Classificação: Livre

Cia de Deborah Colker em apresentação única no Teatro Municipal de Cascavel. Foto: Mariza Mattos

Cia de Deborah Colker em apresentação única no Teatro Municipal de Cascavel. Foto: Mariza Mattos



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