É sexta-feira, término da última
prova do bimestre, acabo de sair da sala e estou indo em direção ao
estacionamento, pegar minha moto para ir pra casa. Pelos corredores da
faculdade percebo as pessoas em ritmo acelerado. Algumas reclamando de ter que
fazer prova numa sexta-feira, outras reclamam do seu peso enquanto comem uma
coxinha e bebem coca-cola. Uma delas está tão vidrada no celular que nem
percebe que uma borboleta acaba de pousar em seu ombro direito. Caminho mais um
pouco e agora já estou mais próxima do estacionamento, nesse local ouço mais
reclamações, percebo expressões de raiva e cansaço. Algumas reclamam por que
não encontraram vaga no estacionamento, outras do barulho que se faz em torno
da faculdade. Enquanto isso, do outro lado, um cãozinho rolava na grama
como se não houvesse amanhã. Fiquei a observar tudo isso, enquanto retirava do
bagageiro da minha moto, o capacete, as luvas e a jaqueta para me arrumar e ir
para casa. Começo a questionar, o que de fato é significativo para os
seres humanos?
Já a caminho de casa, em meio aquele
trânsito agitado de buzinas e "ronco" de motores, meus pensamentos
acerca da vida, também se tornavam um frenessi em minha mente.
Pela lógica, o pensamento deveria ser positivo com relação aos
acontecimentos diários, afinal quando alguém reclama que tem prova para fazer,
é sinal que pode estudar, e isso já a torna privilegiada diante da maioria. Se
as roupas estão apertadas é por que ela tem mais do que o suficiente para
comer, se posso reclamar que não encontro vaga no estacionamento é sinal que
tenho um carro. Se consigo ver tudo que acontece a minha volta, é por que não
tenho problema de visão, e quanto aos barulhos, que às vezes importunam,
isso prova que minha audição está perfeita.
Às vezes só o que precisamos, é mudar nossa maneira de perceber as
coisas. Já conheci pessoas com tão pouco e tão gratas por tudo, outras com
tanto, e só sabiam lamentar.
Percebo que agradecer se tornou uma palavra quase que esquecida no
vocabulário das pessoas.
Volto minha atenção para o trânsito,
nesse momento, estou parada no semáforo a pensar sobre a vida, sobre nossas
necessidades, e percebo que somos tão tolos com algumas discussões, tão
ingratos em algumas ocasiões, tão ingênuos quando se trata de saber
viver. O que existe além do que já foi dito sobre a vida? Toda minha vida é
pautada por coisas que vivi, amores, decepções, emoções, conquistas e derrotas.
Todos nós carregamos conosco uma história, algumas delas só nos atrevemos a
lembrar à noite, quando colocamos nossa cabeça no travesseiro, não importam os
anos, certas coisas simplesmente permanecem.
A vida é tão frágil, as pessoas que
passam por ela são únicas, as coisas que vivenciamos são extraordinárias. Basta
observar o pequeno cãozinho que atravessa nesse momento, pela faixa de pedestre
e o humano que passa em meio aos carros e motociclistas. Seres irracionais?
Qual deles? Afinal, o cãozinho já nasce sabendo de todas essas coisas que eu só
me questionei agora, com 33 anos.
Mariza Mattos
![]() |
| Foto: Divulgação |

Comentários
Postar um comentário
Obrigado por deixar seu comentário.