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Tire a venda


   É quarta-feira, dia 11 de abril, os alunos estão participando de um debate sobre cotas no auditório da faculdade. São quatro debatedores e o restante da turma tem o papel de analisar os argumentos que cada equipe utiliza. A maioria presta atenção, alguns riem, dois ou três olham o celular e um que estava mais distante se alimenta de um pedaço de bolo.       Os debatedores estavam muito nervosos, pude perceber pela voz embargada, pela mão trêmula e o olhar disperso. Em meio a um turbilhão de argumentos contra e a favor, confesso que fui levada pela emoção e comecei a relembrar de fatos que presenciei ou li em algumas matérias, num discurso onde visivelmente o racismo estava impregnado.
   A primeira delas é uma notícia publicada no G1 que fala sobre um estudante de administração da FGV-SP que compartilhou uma foto em um grupo de aplicativo de conversa com a frase: “achei esse escravo no fumódromo! Quem for o dono avisa”.       Infelizmente casos como este não são isolados, as pessoas costumam deixar o preconceito escondido através de suas máscaras. Fico a pensar: O que leva um ser humano agredir outro de forma gratuita e tão desumana? Será mesmo que todo esse ódio se justifica pela cor da pele? É lastimável pensar que a lei Áurea que aboliu a escravidão no Brasil completa 128 anos e mesmo assim a sociedade não evoluiu!
   Todos aqueles argumentos só me faziam pensar de que na verdade não é sobre ter ou não cotas, e sim sobre respeito ao próximo. Não precisaríamos de cotas se os direitos fossem iguais, dizem que são, mas e as condições são as mesmas? Será que as cotas vão mudar a maneira de pensar das pessoas? Ou serão apenas mais um motivo medíocre a ser utilizado para menosprezar os negros que ingressam nas faculdades? O caso citado acima é uma amostra degradante do baixo nível ao qual chegou o ser humano. O que esperar de uma sociedade que ao que me parece, quanto mais instrução tem, mais ignorante se torna! Prova disso é outro fato, que preciso expor...
   Certa vez, um advogado precisava contratar uma secretária, publicou um anúncio e recebeu vários currículos. Selecionou os cinco melhores e os chamou para uma entrevista. Com o primeiro processo finalizado chegou a hora de contratar. Mas antes, um detalhe um de extrema relevância, dentre esses cinco candidatos, uma menina era negra.  Eh, caro leitor, você pode estar pensando: Mas por que tem tanta relevância o fato de uma menina ser negra? Que diferença isso faz? E eu te respondo: Infelizmente, faz toda a diferença! Em pleno século XXI, a cor da pele ainda é fator predominante na escolha no mercado de trabalho. Agora, vamos aos fatos.
   O currículo da menina negra era de longe o melhor de todos os concorrentes. Graduada e pós-graduada, inglês com conversação, muito bem vestida, boa comunicação, boa aparência, enfim, ela se encaixava em todos os pré-requisitos estabelecidos pela empresa para a contratação. Aliás, a candidata possuía qualidades a mais do que as solicitadas para a vaga de secretária. O que me assusta nesse caso, é que depois das entrevistas, foi constatado que a candidata negra era a ideal para preencher o cargo, mas o advogado em questão disse-me a seguinte frase: “Ela é muito boa, tem um currículo excelente, mas como eu vou colocar uma ‘negrinha dessas’ para atender os meus clientes?”.
   Peço desculpas pelos termos pejorativos utilizados no texto, mas foi exatamente com essas palavras que ele definiu a moça. Triste não é mesmo? Quando citei no início que o racismo está impregnado na sociedade, talvez você tenha discordado, mas depois desses exemplos, conseguiu perceber a hostilidade com a qual o preconceito ataca e afeta a vida das pessoas? Por isso, torno a enfatizar, não adianta criar políticas paliativas, cotas etc. É preciso que haja consciência por parte da sociedade. É uma questão que vem e vai, assim como as marés. Avancemos no tempo.
   A comunicação que deveria ajudar, também é falha neste sentido. Basta observar onde normalmente, são colocados os personagens negros, seja em anúncios ou em novelas. O negro é sempre o melhor amigo do branco, a mãe solteira, a prostituta, a gostosona ou a  empregada, mesmo num país como o Brasil, onde a maioria da população é negra ou mestiça. Se você discorda, então olhe para trás, olhe a nossa história, os nossos ancestrais. Parafraseando "Gabriel O pensador": "Não vê a solução da questão, que por incrível que pareça está em nossas mãos, só precisamos de uma reformulação geral, uma espécie de lavagem cerebral". E aquele advogado que muitos chamam de doutor, parece-me que o único título que lhe cabe, é o de doutor da ignorância.
Mariza Mattos
Foto: Divulgação


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