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Relacionamento abusivo existe SIM!


         Malu é uma jovem, no auge dos seus 17 anos, cheia de sonhos e fantasias. Uma menina que cresceu sob o discurso de que “mulher nunca vai se governar”. Enquanto morar com os pais, deve obediência a eles, quando se casar, deve obedecer o marido. Estava predestinada a ter o mesmo tipo de relacionamento abusivo que o restante da família sofreu. Entre os 17 e 18 anos, Malu conheceu um rapaz, um pouco mais velho do que ela e começaram a namorar. Pressionada pela família a assumir esse relacionamento, os dois jovens resolveram se casar.
Ela queria apenas fugir da pressão dos pais, ele nem sabia o que queria da vida. Mal sabia Malu, que sairia do comando dos pais para viver uma ditadura pelo atual namorado. O tempo foi passando e a jovem não percebeu que ao invés de viver, ela apenas existia. O convívio com o marido era um caos, ele a chamava de burra porque ela não conhecia algum livro ou então não sabia falar a respeito de um filme, dizia que ela era feia e que as pessoas sentiam pena dela, que ela era tão insuportável que até sua família a detestava. Quando ela cogitou aprender a dirigir, ele dizia que ela não nasceu para isso, que iria ter medo, que não seria capaz de tal feito. Quando ela pensou em voltar a estudar, ele ria e dizia que ela nunca seria alguém na vida. Afastou Malu de todos os amigos com a desculpa que a amava e a queria só para ele, não a deixava falar com outros homens porque tinha ciúmes, e ela, só sabia obedecer.
A jovem Malu tinha a obrigação de se manter no ‘peso ideal para ele’, pois vivia chamando-a de gorda, sendo que ela pesava apenas 55 quilos, para uma mulher de 1,70, ela estava bem abaixo do peso... A menina tornou-se propriedade dele, na sua mente doente, ele havia “comprado” todos os direitos sobre ela.  Era proibida de usar as roupas que gostava. Se fossem curtas, eram de ‘puta’, se fossem coladas, estava querendo se mostrar, se ela olhasse para o lado, estava olhando para outro homem. Se ficasse feliz por alguma conquista, queria se mostrar, se suspeitasse de alguma coisa, era chamada de louca. Mal ela podia se queixar de alguma dor, que ouvia insultos dizendo que ela vivia doente e só sabia reclamar.
Ele, por sua vez, podia fazer tudo. Sair com os amigos, ir ao futebol quase todos os dias, se vestir bem, contava vantagens a ela, e sempre reafirmava o quanto ela tinha sorte por tê-lo ao seu lado. Afinal, ela jamais iria conhecer alguém tão perfeito quanto ele e que a “amasse” de tal forma! Quem iria aceitar uma mulher com tantos defeitos, se não ele? O próprio se pintava de uma figura endeusada para convencer a jovem de que aquele era seu único e melhor destino. E assim passaram-se um, dois, cinco, dez anos e Malu se anulando como pessoa, cheia de doenças causadas por uma relação abusiva, stress, gastrite, tontura, enjoos. Ela emagrecia gradativamente, aos 22 anos quase entrou em depressão.
A história descrita nas linhas acima retrata claramente um relacionamento abusivo sofrido por uma jovem que teve seus sonhos e sua adolescência roubados numa relação em que, infelizmente muitas mulheres enfrentam diariamente. Talvez você que esteja lendo esse texto, se identifique com alguma característica, ou quem sabe esteja passando por isso ou conhece alguém que vive ou viveu esse tipo de relação. Há feridas que não aparecem, mas sangram por dentro. Grande parte das pessoas que eu conheço já passou por isso, mas a vergonha ou o medo lhes impede de falar a respeito. Um estudo realizado pela ONU constatou que 60% das mulheres já sofreram em relacionamentos abusivos, três a cada cinco mulheres sofreram ou irão sofrer nesse tipo de relação, no Brasil. O país ocupa o 5ª lugar no ranking de feminicídio, sendo que, 41% dos casos ocorrem dentro de casa. Números assustadores e inadmissíveis.
Fala-se tanto em igualdade, mas em nossa sociedade infelizmente, predomina o machismo. A figura do homem ainda é vista como superior à da mulher seja no mercado do trabalho, em casa, nas escolas, no trânsito, na política, enfim. Isso é fator predominante para que tantas mulheres aceitem ser diminuídas por eles. Não nos falta capacidade e muito menos argumentos para provar que somos tão capazes quanto eles de realizar qualquer coisa. Talvez o que nos falte é consciência, é o debate sobre esses assuntos que nos envergonham, é a coragem de expor nossa opinião e nossas histórias para que mais mulheres percebam que o que elas vivem é sim, um tipo de violência. Se te machuca, te causa dor, não é amor!
As razões que impedem as mulheres, assim como Malu a sair de um relacionamento abusivo, são inúmeras. Vão desde o medo, devido às ameaças sofridas por parte do abusador; a confiança plena no outro; acreditar que o abuso é normal, é o ‘jeito de amar do outro’; ter crescido em um ambiente em que muitas vezes a violência é naturalizada; a baixa autoestima provocada pelo abusador (afinal ele a coloca para baixo, a diminui e como se não bastasse, coloca a culpa nela de todos os abusos cometidos por ele); pressão psicológica da família ou ainda questões religiosas, do tipo que casamento é para sempre, é imoral ser uma mulher separada.
Há tanta vida lá fora, há tanta gente sofrendo aqui dentro. O assunto pede urgência! Tudo que acontece conosco, só acontece porque nós permitimos que nos afete, não permita sequer perder um ou mais anos de sua vida com alguém que não te valorize. Pense em você em primeiro lugar, no que te faz bem, no que te traz alegria e paz, no que não acaba com sua saúde mental e física. Isso não é egoísmo, é amor próprio, é valorização do ser humano que você é.
E quanto à jovem Malu? Bem, hoje ela não é tão jovem como aos 17 anos, mas ainda está cheia de sonhos, contrariou as estatísticas do ambiente em que vivia, quebrou regras e rompeu padrões que lhe foram impostos, e agora, sempre que tem uma oportunidade de falar a respeito, ela não se cala.
A Malu sou eu! Eu vivi um relacionamento abusivo, e hoje, estou livre de tudo que me trava o riso, que me coloca para baixo e me impede de viver os meus sonhos. Inclusive estou prestes a realizar mais um, a graduação em Jornalismo. Foi uma década de abuso, mas a superação veio quando eu me dei conta de que aquilo não era certo, que não importava o quanto eu desejasse e acreditasse na mudança, ela não viria, porque ele não queria mudar, quem tinha que mudar era eu.

Mariza Mattos, estudante de Jornalismo e pesquisadora inquieta sobre o tema, abuso contra mulheres.





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